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O uniforme, o voto e o direito de escolha. A construção da democracia na adolescência.

Escutando uma adolescente de 14 anos falar sobre as novas regras colocadas pela escola em relação ao uso do uniforme escolar me fez refletir sobre como estamos pensando e construindo  a democracia com os jovens. Eu sei, você deve ter pensado aí: o que uma coisa tem a ver com a outra? Deixa eu contar uma história para a gente tentar juntar as coisas.  

Eu cresci em meio ao cenário de “diretas já” e redemocratização do Brasil. Lembro de ver nos jornais os manifestantes nas ruas, lembro das reuniões escondidas no quintal de casa e do medo que minha mãe sentia quando meu pai chegava tarde em casa. Lembro de sentar no chão do saguão do colégio junto com muitos outros colegas enquanto pintávamos faixas de “Fora Collor”. Lembro de conversar sobre política com minhas amigas e,  algumas vezes, até nos exaltarmos nas discussões. 

Quando fiz 16 anos emiti meu título eleitoral. Não era ano de eleições, mas eu entendi que esse era um dos documentos mais importantes que eu poderia ter. Não era obrigatório ainda (somente a partir dos 18 anos passa a ser exigido por lei), mas, para mim era uma conquista poder desfrutar de um direito que meus pais não tiveram quando tinham minha idade.  Assim como eu, muitos jovens se direcionavam aos tribunais regionais eleitorais para solicitar seus títulos de eleitor. Vivíamos em um cenários de debates e construção prática da democracia.

Mas o que essa história tem a ver com uniformes escolares?  Você já se perguntou como são escolhidas as cores e modelos de cada uniforme? Geralmente são todos muito parecidos: calça, camiseta, bermuda, casaco. Mas a tamanho, a mistura das cores, o formato da calça (mais larga, mas estreita), será que algum jovem é consultado sobre isso? Foi exatamente esse assunto que surgiu na minha conversa com a jovem de 14 anos. Ela chegou muito chateada porque a escola, apesar de ter o uniforme a bastante tempo, era opcional e de um dia para o outro decidiram que passaria a ser obrigatório. Com isso, iniciou uma fiscalização sobre o uso “correto” do uniforme. Ela não tinha o uniforme completo e precisou solicitar. A escola entregou um modelo de 14 anos, mesmo ela tendo estatura pequena e solicitando um tamanho menor, ao que a escola se negou a fornecer. 

Então vejamos a situação de forma organizada: o uso obrigatório foi decidido e comunicado sem nenhuma participação dos principais envolvidos na decisão: os estudantes. O tamanho não podia ser escolhido, era entregue conforme a idade, sem nenhum tipo de análise de estatura e tamanho corporal. Então, perguntei a ela se alguma vez a escola havia conversado com os alunos sobre modelos e uso de uniformes. Nunca! Foi a resposta que ela me deu. Já entrei em muitas escolas e sei que essa é uma resposta verdadeira, os estudantes não participam da escolha dos modelos, cores ou design dos uniformes. 

A democracia é construída na prática. Ela não se constrói lendo um livro. Lemos o livro e colocamos em prática. Das coisas simples do dia à dia até coisas mais complexas. A família e a escola são os primeiros lugares onde as crianças e jovens vão aprender sobre isso. Mas se não praticamos isso diariamente, não é hipócrita acreditarmos que estamos ensinando conceitos sociais e históricos apenas com a teoria? Viver democraticamente é construção, é movimento e, sobretudo, é confiança. Será que confiamos no que estamos ensinando aos nossos jovens a ponto de deixa-los escolherem? Não uma escolha sem limites, sem bordas, mas uma escolha orientada e supervisionada através da escuta e do amor. 

Voltando ao cenário eleitoral, nos anos 1990, aproximadamente um em cada três adolescentes de 16–17 anos tinha título eleitoral. Em 2026, são pouco mais de um em cada quatro. Isso significa uma redução de aproximadamente 5,1 pontos percentuais, ou cerca de 16% na taxa de adesão, comparando esses dois momentos.*

E há uma aparente contradição muito boa para pensarmos: o adolescente atual tem muito mais acesso à informação política, às redes sociais e ao debate público do que o adolescente de 1994 — mas isso não está se convertendo, em 2026, em maior adesão ao título eleitoral facultativo. 

Isso não quer dizer  que os jovens atuais são menos interessados em política. O que os números demonstram é algo mais específico: a adesão ao alistamento eleitoral facultativo é menor. Participação política, interesse político e emissão de título não são necessariamente a mesma coisa. Mas precisamos refletir porque estruturas de formação e desenvolvimento social, como a escola por exemplo, ainda tem dificuldade em construir espaços coletivos de elaboração de regras e tomada de decisão. 

Será que somos capazes de escutar o que os jovens pensam sobre as ideias que temos de sociedade e convívio social? Será que somos capazes de instituir mudanças que serão construídas com todos os envolvidos no local de convívio? Muitos dos problemas que as escolas enfrentam podem e merecem ter o olhar dos jovens na busca de soluções. A hora do lanche está bagunçada, muitos furam a fila? Pergunte à eles como podemos resolver. O banheiro está sempre sujo? Pergunte a eles quais as melhores soluções dentro das opções existentes. É com perguntas que uma democracia é construída e não com respostas prontas. 

E aí, você está pronto para escutar? 

Para consultar: 

* https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/07/com-eleitorado-mais-velho-brasil-tera-1587-milhoes-aptos-a-votar-em-2026-diz-tse.shtml

https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Julho/mais-de-158-milhoes-de-eleitores-estao-aptos-votar-nas-eleicoes-2026

https://www.tse.jus.br/institucional/escola-judiciaria-eleitoral/publicacoes/revistas-da-eje/artigos/revista-eletronica-eje-n.-2-ano-3/eleitores-menores-de-18-anos-cada-eleicao-uma-nova-estatistica

Dica de filme: Escola de Rock (2003)

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Gabi Braun é psicanalista e mediadora de conflitos na escola. Pós-graduação nas áreas de psicologia infantil, neuropsicologia e infância e adolescência. Pós graduação em andamento em Psicanalise clinica. Escritora.

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