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Como amar um filho que não é você?

Sobre desejo, expectativa e a difícil tarefa de deixar o outro ser

E quantas vezes o medo te paralisa? Quantas vezes as incertezas falaram mais alto que a sua autoconfiança?

Bom, eu não sei você, mas por aqui não foi só na adolescência que isso aconteceu. Volta e meia me deparo com a angústia de ser um fracasso, uma fraude, um equívoco da vida, coisas comuns de se ouvir de adolescentes em sessão. E, mais comum ainda, de adultos.

E por que será que, mesmo com a idade nos acompanhando, esses sentimentos continuam? Se agarram, se escondem dentro de nossas entranhas e, como invasores ardilosos, esperam o momento certo para aparecer, causar estrago e desaparecer novamente.

Seria talvez por aquela sensação incômoda de não sermos suficientemente bons para nossos pais? Por aquela nota que não alcançamos? Ou pela bola que não agarramos? Um quilo extra que ganhamos? Por não sermos chamados para todas as festas? Ou por não receber aquele reconhecimento que a escola entrega aos “melhores”?

Talvez, ainda, por não ter limpado a casa direito, por não ser o melhor piloto de bicicleta, ou simplesmente por ser eu, e não aquilo que sonharam que eu seria. E como é duro não ser o que sonham que a gente seja, não é?

Às vezes bastava apenas ser o óbvio, ser uma cópia, ser imagem e semelhança de quem nos fez. Mas não. Queremos ser quem somos, ou, quem sabe, nem queremos, mas precisamos.

Então pronto, está instalado o mal-estar dentro de nós, sensação esta que arrastamos como correntes presas aos nossos tornozelos pela nossa existência. Levaremos isso para nossas relações afetivas, profissionais, sociais e, enfim, depois de muito tentar, nos deparamos como pais, professores, cuidadores, nos sentindo insuficientemente bons.

Mas e se o suficientemente bom também for falho?

Não seria então tudo apenas um ciclo? Porque não dizer que os que nos fizeram, sonharam, planejaram e moldaram o que somos hoje não estavam apenas projetando em nós aquilo que não puderam ser? Ou pior, aquilo que tentaram ser para agradar o outro e não conseguiram.

Despejando, assim, suas angústias, frustrações, sonhos, medos, incertezas, fracassos e desejos sobre o outro, que pouco pode fazer para mudar este panorama.

O quão doloroso seria olhar para si e se reconhecer nesse ciclo? Teríamos então coragem de parar, observar e encontrar outra forma de fazer? Conseguiríamos assumir nossos desejos e reconhecer beleza no desejo puro do outro?

Seria possível compreender que aquele sujeito, com medo, confuso e cheio de sonhos, parado ali num quarto da minha casa, não sou eu? E, ainda assim, há algo de mim ali.

Preciso reconhecer quem sou para poder deixar o outro ser sem amarras, sem restrições, sem condições.

Quantas vezes nos foi dado o direito de sermos amados sem condições, apenas amados, amor puro e simples?

E se amar sem condições não for possível o tempo todo?

Dura a realidade de olhar e perceber que, quem sabe, nunca tenhamos provado esse sabor. Pior ainda, é quando pensamos quando nós amamos sem condições.

Quando desmontamos a balança das medidas para dizer aos nossos jovens: sejam o que quer que seja, não importa, eu estarei aqui.

Teríamos condição de vencer nosso narcisismo primário e apenas contemplar o belo que é do outro e não o seu? Secar nossas feridas ao invés de espalhá-las para mais pessoas.

Um dia ouvi uma jovem dizer que seus pais eram muito compreensivos e liberais em comparação com outros pais e que isso tirou o direito dela de ser rebelde.

Portanto, não seria assim a rebeldia uma forma de dizer ao outro: me ame, mesmo que eu não seja você?

Pois quando se é quem se pode ser e não há repressão de quem amamos por isso, não precisamos transgredir, apenas precisamos existir.

Porque, no fundo, quando o amor sustenta, a rebeldia deixa de ser um grito e vira escolha.

Ilustrações: Eduardo Scheneider

Referências bibliográficas

DOLTO, Françoise. A causa dos adolescentes. Aparecida: Ideias & Letras, 2023.

FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo. In: FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 12: Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 4: A relação de objeto. Rio de Janeiro: Zahar, 1995.

WINNICOTT, D. W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 1983.

WINNICOTT, D. W. Tudo começa em casa. São Paulo: Ubu Editora, 2021.

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Cláudia Scheneider é psicanalista com foco em adolescência e altas habilidades/superdotação. Psicóloga e pós-graduanda em Psicologia Organizacional e do Trabalho. Empresária há mais de 15 anos, atriz e palestrante, atua há mais de 20 anos em projetos sociais com crianças e adolescentes. É implementadora de NR-1 reconhecida pelo MEC e integra o NEPPA, colaborando com estudos, textos e seminários sobre psicanálise e adolescência.

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