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Seu filho cresceu. E você?

Talvez o adolescente que você tenta proteger também seja uma parte sua pedindo escuta.

Fazer a caminhada dentro da psicanálise foi algo revolucionário na minha vida.

O que era uma angústia, uma necessidade de encontrar algo novo, de entender, de me entender e de entender o outro, foi se transformando em algo muito intrínseco, muito particular: a necessidade de fazer com que o outro também se entendesse melhor.

Ao longo dessa caminhada, percebi que falar de infância, falar de adolescência, principalmente da adolescência, que foi o que o NEPPA se propôs a fazer, estava muito ligado a falar de si.

No fundo, acho que todo mundo quer que alguém olhe para si. Que alguém o note. Que alguém perceba sua existência.

E, quando a gente percebe que a primeira pessoa que precisa olhar e nos notar somos nós mesmos, também percebe o quanto, muitas vezes, damos valor ao outro, às outras coisas, ao futuro, ao que vai ser, porque temos muita dificuldade de olhar para o que se é. De aceitar o que se é.

Ao longo desses anos, venho entendendo o quão difícil é ser quem se é. E entender quem se é.

Então, quando a gente fala em adolescência, estamos falando de algo muito maior do que aquele sujeito que dorme no quarto ao lado, tantas vezes chamado de filho, aluno, paciente, jovem. Estamos falando de um sujeito em evolução. De alguém que está se construindo, tentando reconhecer o próprio contorno, tentando entender o que sente, o que deseja, o que teme e o que ainda não consegue nomear.

Estamos reconhecendo que presenciamos uma parte da vida de alguém. E, de alguma forma, aquilo que oferecemos ou retiramos, aquilo que sustentamos ou interrompemos, pode ficar lá dentro, marcado como as tatuagens que amamos ou odiamos.

Porque, na verdade, as fases da vida não vão embora.

A infância não se despede para que a adolescência comece. A adolescência não fecha a porta para que a vida adulta entre. A vida adulta não apaga o que veio antes.

Elas permanecem. Elas se sobrepõem. Elas se carregam.

Hoje compreendo que somos muito mais parecidos com aquelas bonecas russas chamadas matrioskas, bonecas de madeira que guardam uma dentro da outra, em tamanhos que vão diminuindo, como se cada uma revelasse uma outra parte escondida.

A criança fica dentro do adolescente. O adolescente fica dentro do adulto. O adulto fica dentro do idoso. E um dia partimos para uma outra viagem, que já é outro assunto.

Mas, diferente das bonecas, essas partes não ficam apenas guardadinhas uma dentro da outra.

Dentro de nós, vira e mexe, essas partes aparecem. Não tão silenciosas.

Às vezes gritam, berram, choram, riem. Aparecem em forma de medo, de raiva, de silêncio, de desejo, de angústia, de saudade, de uma dor que parecia antiga, mas continua viva. Ou de um sonho que achávamos já ter deixado para trás, mas que ainda pulsa como desejo inevitável, buscando um porto.

No fundo, no fundo, nós temos vários “eus” dentro de cada um de nós.

E talvez a dor maior seja perceber que, muitas vezes, não estamos sendo capazes de ouvir esse sujeito que está se construindo diante de nós. Ou talvez não estejamos sendo suficientemente bons para tornar esse processo mais possível, mais suportável, mais humano.

Porque, muitas vezes, por medo de falhar, a gente falha.

Por medo de errar, a gente erra.

Por medo de ver o outro sofrer, a gente tenta impedir que ele viva aquilo que também faz parte da vida. E, sem perceber, acabamos ensinando aos nossos filhos que eles também não podem errar. Que eles também não podem falhar. Que eles também não podem quebrar.

Mas a frustração faz parte do processo.

Ela dói. Ela nos atravessa. Ela nos mostra limites. E talvez seja justamente por isso que a gente tenta, tantas vezes, impedir que o outro se frustre.

Porque, no final das contas, a gente volta para a gente mesmo.

O que essa caminhada me ensinou até aqui é que, antes de tentar salvar o outro de toda dor, eu preciso aprender a me escutar. Preciso me entender, me conhecer, me ouvir.

Mas ouvir todas as partes.

Inclusive as que doem.

É buscar ajuda. É fazer terapia. É fazer análise. É tomar banho de sol. É pausar. É permitir espaço para mim. É abrir espaço na minha vida para mim.

Quando eu me olho no espelho, quando eu me conheço, quando eu me entendo, quando junto as partes que formam esse mosaico, começo também a aceitar cada rachadura.

E talvez seja preciso entender que um mosaico precisa ser quebrado para ser construído.

Não como destruição, mas como possibilidade de composição.

Cada pedaço que parecia perdido pode encontrar outro lugar. Cada rachadura pode deixar passar alguma luz. Cada parte quebrada pode se unir a outra e formar algo que antes não existia.

Talvez a psicanálise seja, para mim, esse fio condutor. Uma linha que costura. Uma cola delicada que não apaga as marcas, mas ajuda a juntar as partes.

A criança, o adolescente, o adulto, os pedaços de outros que carregamos, as dores antigas, os desejos silenciados, as falhas, os medos, as tentativas de acertar. Tudo isso vai formando um mosaico belo, imperfeito e único, que reflete no nosso espelho.

E talvez seja esse o convite mais difícil: olhar para esse mosaico sem a pressa de consertá-lo. Reconhecer suas rachaduras, suas cores, seus vazios, suas partes herdadas e suas partes escolhidas.

Porque o adolescente que habita em nós, assim como aquele que dorme no quarto ao lado, não precisa ser uma obra pronta. Ele precisa de tempo, de escuta, de presença e de espaço para continuar se fazendo.

E talvez nós também.

Ilustrações: Eduardo Scheneider

Referências bibliográficas

ABERASTURY, Arminda; KNOBEL, Mauricio. Adolescência normal: um enfoque psicanalítico. Porto Alegre: Artmed, 1981.

DOLTO, Françoise. A causa dos adolescentes. Aparecida: Ideias & Letras, 2004.

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WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

WINNICOTT, D. W. Tudo começa em casa. São Paulo: Ubu Editora, 2021.

NASIO, J.-D. Como agir com um adolescente difícil? Um livro para pais e profissionais. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

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Cláudia Scheneider é psicóloga e psicanalista, com atuação clínica junto a adolescentes e adultos. Pós-graduada em Psicologia Organizacional e do Trabalho, cursa Psicologia de Grupos e especialização em Altas Habilidades/Superdotação. Integra o NEPPA desde sua formação, onde participa de estudos, produção de textos e seminários sobre psicanálise e adolescência. Palestrante, pesquisa e trabalha especialmente com adolescência, identidade, parentalidade e AH/SD.

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