P.s.1: Contém spoilers.
P.s. 2: Esse tema pode ser sensível.
Não escolhi essa abordagem de forma aleatória e vou te contar como cheguei nessa ideia: faço parte de um seleto e empenhado “clube do livro” e este foi o último que lemos. Pensando nos desafios que abordamos no NEPPA e também na minha clínica diária com adolescentes, senti uma inquietação para trazer aqui.
O final me causou esse movimento. Se você leu, talvez tenha tido a mesma impressão. Se não leu, fica o convite, inclusive, para discordar de mim.
Uma Delicada Coleção de Ausências acompanha Laura em sua travessia entre infância e adolescência, cercada pela presença cuidadora e, ao mesmo tempo, ambivalente da avó Margarida, pela memória e pelo peso geracional trazidos pela bisavó Filipa, e pela ausência persistente de Glória (a mãe da Laura), cuja falta nunca é apenas ausência, mas uma força que organiza afetos, perguntas e silêncios. O enredo trata não apenas uma narrativa sobre perdas, mas sobre aquilo que se transmite pelos vínculos, inclusive quando não se encontra palavras para ser nomeado.
Ninguém entende porque Glória deixou a menina pequena.
Margarida tenta ganhar dinheiro “lendo mãos” para sustentar as duas.
Filipa, a bisa, precisa de um lar e volta para viver com elas.
Essa dimensão ganha mais atenção quando surge Camilo, amigo de Margarida que chega e ajuda de forma financeira e voluntária.
Até aqui não haveria nada de dramático e emblemático, certo?
A partir de uma suposta simples carona para a escola, Camilo abusa de Laura.
Um plot twist…
(A arte imitando a vida e expondo de modo cru uma realidade não tão distante)
Me atento a trazer uma visão psicanalítica: talvez um dos aspectos mais potentes do livro seja justamente não tratar a violência apenas como um acontecimento isolado, identificável e externo, mas como algo que pode se insinuar na trama das relações, produzindo confusão, ambivalência e desorganização psíquica.
Essa discussão ganha ainda mais peso quando olhamos alguns dados sobre violência sexual contra crianças e adolescentes. Uma pesquisa publicada na Revista Ciência em Extensão, da Universidade Estadual Paulista, mostra que em 38,43% dos casos houve conivência do responsável diante do abuso. Esse é um dado duro, porque nos obriga a pensar que o sofrimento não se produz apenas pela violência sofrida, mas também quando a proteção falha ou quando o entorno não consegue reconhecer o que está acontecendo. E isso toca diretamente aquilo que Ferenczi nomeia como desmentido. (ojs.unesp.br)
Outro aspecto muito significativo é que 93,51% dos agressores eram pessoas do convívio da vítima. Não eram estranhos, mas vizinhos, padrastos, pais, namorados, pessoas inseridas no campo da confiança. Esse dado desmonta uma fantasia muito comum de que o perigo vem de fora, porque, muitas vezes, ele emerge justamente dentro dos laços. E isso conversa profundamente com a confusão de línguas em Ferenczi, quando o lugar que deveria sustentar cuidado se torna também lugar de invasão. (ojs.unesp.br)
Também chama atenção que grande parte dos abusos aconteceu em ambiente domiciliar, seja na casa da criança, seja na do agressor. Isso é muito impactante, porque mostra que o cenário traumático pode ser o mesmo espaço que deveria oferecer abrigo. Quando proteção e perigo se confundem, algo muito fundamental da confiança fica comprometido. (ojs.unesp.br)
Há ainda um dado delicado, e por vezes menos discutido, sobre a sedução como estratégia de abuso, por meio de presentes, comida, jogos, dinheiro, promessas. Isso é importante porque mostra que a violência nem sempre chega apenas pela força. Ela também pode se instalar pela captura, pela manipulação, pela ambiguidade. E esse ponto é central para pensar a confusão de línguas.
Talvez um dos dados mais fortes seja o de que 64,81% das vítimas sofreram ameaças, inclusive ouvindo que ninguém acreditaria se contassem. Essa frase, por si só, parece condensar algo do desmentido. Não é só o medo da violência, é também o medo de que a palavra não encontre escuta. (ojs.unesp.br)
Quando olhamos para isso, fica mais compreensível porque, na adolescência, certas dores aparecem de forma deslocada. Nos cortes, nos silêncios, nas condutas de risco, em relações abusivas que se repetem, em resistências que muitas vezes são lidas apenas como oposição. Em alguns casos, pode haver aí tentativas de dar forma ao que ficou tempo demais no campo do indizível.
A violência aparece, sim, em sua dimensão sexual e em tudo que isso implica como ruptura do campo de proteção, mas o livro também permite pensar o abuso em sentidos mais amplos, quando a invasão se instala em palavras, em gestos, em silenciamentos, em manipulações, em formas de constranger ou erotizar precocemente uma criança, em experiências em que o sujeito sente que algo está errado, mas ainda não dispõe de linguagem para compreender o que está vivendo.
É justamente nesse ponto que o atravessamento com a obra de Sándor Ferenczi se torna tão interessante. Em sua teoria e obra Confusão de Línguas entre os Adultos e a Criança, Ferenczi nos ajuda a entender que o trauma não está apenas no ato violento, mas também na quebra radical de uma gramática relacional.
Traduzindo: a criança fala a linguagem da ternura, da confiança, do pedido de cuidado; o adulto abusivo responde com a linguagem da paixão, da posse, da invasão. Quando essas duas línguas se confundem, não se produz apenas sofrimento, mas um colapso na possibilidade de distinguir cuidado e violência. E essa talvez seja uma das dimensões mais devastadoras do traumático.
Laura, em muitos momentos, parece habitar precisamente esse lugar de confusão, em que o sofrimento não aparece como narrativa organizada, mas como algo que se infiltra em sensações, em reações, em medos, em silêncios. E aí entramos no campo do indizível, que é tão importante para pensar o trauma. Porque há experiências que não se tornam imediatamente palavras. Elas permanecem como restos psíquicos, como marcas que o corpo guarda, como angústias sem nome, como percepções fragmentadas que ainda não puderam ser simbolizadas. Muitas vezes, o traumático não é apenas aquilo que fere, mas aquilo que não pôde ser narrado.
E Ferenczi radicaliza isso quando introduz a noção de desmentido. Porque, para ele, a violência se agrava quando a experiência da criança não encontra testemunha. Quando alguém percebe algo e não quer ver. Quando a denúncia é minimizada. Quando a dor é desacreditada. Quando o adulto, que deveria sustentar a realidade do vivido, devolve à criança a mensagem de que nada aconteceu, ou de que ela está confundindo, exagerando, inventando. Não é apenas uma negação do fato. É uma negação da verdade emocional da experiência.
É impossível não pensar nisso ao olhar para Margarida. Sua dificuldade de ver o que se passa em torno de Laura pode ser lida não apenas como descuido, mas como defesa diante do insuportável. Reconhecer a violência implicaria reconhecer a falha na proteção, e isso pode ser psiquicamente intolerável. Mas a recusa em ver, ainda que inconsciente, também produz efeitos. Porque quando a proteção falha e ninguém nomeia a falha, a criança ou o adolescente podem viver não só a invasão inicial, mas também a solidão diante dela.
E esse mecanismo não se restringe ao abuso sexual. Ele aparece em muitas experiências do cotidiano, inclusive em sofrimentos frequentemente banalizados na adolescência; quando um jovem fala de dor e escuta que é drama, quando traz angústias e recebe ironia, quando um corte no corpo é lido apenas como afronta, quando uma retração é interpretada apenas como rebeldia, pode haver ali formas de desmentido. O sofrimento não encontra inscrição e retorna como sintoma.
Talvez por isso o livro dialogue tão profundamente com a adolescência. Porque o adolescer aparece como tempo em que marcas antigas reaparecem, pedindo elaboração. O corpo muda, o desejo emerge, a necessidade de separação se intensifica, mas tudo isso pode ser atravessado por vulnerabilidades que vêm de muito antes. Muitas resistências adolescentes podem ser lidas por esse prisma. A recusa, a oposição, o fechamento, a impulsividade, por vezes, não são apenas enfrentamento, mas formas precárias de proteger algo muito ferido.
Isso também lança luz sobre as angústias dos pais. Porque muitas vezes o excesso de controle, a vigilância, a dificuldade de deixar ir, aparecem como proteção, mas carregam medos mais antigos: o medo de perder, de falhar, de que algo aconteça e não se perceba a tempo. O livro toca esse ponto de maneira muito sensível ao mostrar que cuidar nunca é um lugar simples, e que a proteção pode oscilar entre amparo e captura.
Olhando para a história da Laura, isso ganha outro peso. O abuso vindo de Camilo não fica restrito a um episódio, ele atravessa o ambiente inteiro e muda a forma como tudo passa a ser vivido. Quando a violência vem de alguém próximo, de alguém que deveria ocupar um lugar de cuidado, não é só uma invasão. Existe uma quebra interna, uma confusão que desorganiza. Fica difícil entender o que aconteceu, mais difícil ainda colocar isso em palavras. O silêncio começa a se formar aí, não como escolha, mas como uma forma de seguir existindo com algo que ainda não tem nome.
A ausência de Glória também se inscreve nesse cenário. Seria Laura filha de Camilo e Glória? Essa inquietação é trazida como um corte que atravessa a carne, pois esse evento não aparece apenas como abandono direto, mas como um afastamento que pode carregar um limite psíquico.
Quanto de Glória existe em Laura na pauta do não dito? Se isso foi verdade, justifica-se a fuga e ausência dessa mãe de não ter sido validada, vista e ouvida. Sua única saída: ir embora. Há situações em que reconhecer o que está acontecendo exige um nível de enfrentamento que nem todo adulto consegue sustentar. E então o movimento é se afastar. Não ver. Não conseguir ficar. O silêncio passa a existir em diferentes pontos da relação. Na criança que não consegue contar. No adulto que não consegue ouvir. E naquele que, de algum modo, se retira.
Isso não reduz a dor, mas amplia o entendimento. O silêncio deixa de ser apenas falta de fala. Ele passa a ser um efeito de tudo o que não encontrou lugar. De um lado alguém segue carregando uma experiência que não pôde ser dita. Do outro há adultos que não conseguiram sustentar o que precisavam ser reconhecidos.
Na adolescência isso aparece de outro jeito. Não vem como um relato claro. Surge no corpo, nas reações, nas mudanças de comportamento que muitas vezes são lidas como enfrentamento ou rebeldia. Mas ali pode existir algo tentando se expressar. E o risco continua sendo o mesmo de antes: não escutar.
Nesse caso, a metáfora de Ferenczi sobre a fruta bicada conversa muito com essa obra. A marca existe, o dano existiu, mas o sujeito não se reduz à ferida. A questão passa a ser o que se faz com essa marca, se ela será tratada como condenação silenciosa ou se poderá, em algum encontro, tornar-se narrativa.
E talvez aí esteja uma das questões éticas mais profundas que o livro nos oferece. O oposto do trauma não é apagar o vivido, mas encontrar alguém que não desminta, que possa sustentar escuta para aquilo que um dia foi indizível e que, justamente por isso, pôde começar a ser dito.
Muitas coisas na adolescência não podem ser expressas de forma direta e vão aparecer no corpo, no jeito de reagir, no silêncio, no afastamento, no excesso. E aí é muito fácil cair naquele rótulo pronto, o tal do “aborrecente”, que, sinceramente, até arrepia mesmo… porque ele simplifica demais o que é complexo.
Quando a gente rotula, a gente para de escutar. E talvez o ponto seja justamente o contrário. Conseguir olhar para esse adolescente sem pressa de explicar, sem transformar tudo em rebeldia ou falta de limite. Às vezes o que está ali é uma dor que ainda não encontrou forma, uma experiência que ficou meio sem lugar dentro dele. E o corpo acaba fazendo esse trabalho. Sustentar esse olhar, mais curioso e menos julgador, já é, por si só, uma forma de cuidado.
Algo que eu gostaria de relembrar e até provocar é que, embora essa teoria tenha grande aplicabilidade da clínica psicanalítica, como seria se você pudesse acolher seu adolescente apenas com a escuta e presença, sem desmentir, sem interpretar, com interesse genuíno em se fazer confiável de ver as suas angústias?

Referências Bibliográficas:
FERENCZI, Sándor. Diário Clínico. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
BEI, Aline. Uma Delicada Coleção de Ausências. São Paulo: Companhia das Letras, 2025.
FERENCZI, Sándor. Confusão de Línguas entre os Adultos e a Criança. In: ______. Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
FUKUMOTO, A. E. C. G. et al. Perfil dos agressores e das crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. Revista Ciência em Extensão, Botucatu, v. 9, n. 1, p. 164–181, 2013. Disponível em: Artigo UNESP. Acesso em: 7 maio 2026.
https://cbn.globo.com/brasil/noticia/2026/03/25/uma-em-cada-quatro-adolescentes-de-13-a-17-anos-diz-ja-ter-sido-tocada-contra-a-vontade-no-brasil-aponta-ibge.ghtml
_
Camila Manga é Psicanalista Clínica e analista comportamental com foco no atendimento de adolescentes, adultos e casais. Apresenta semanalmente o quadro Cá entre Nós na Tarde Nativa FM Campinas e atua em projetos de palestras, workshops e desenvolvimento emocional no ambiente corporativo. Conheça mais sobre a transmissão de Camila neste link.