Em notícia trazida pelo ICL Notícias, nota-se a falta de coerência e até as violências por relegar um assunto de saúde pública a apenas uma pauta moral.
A Câmara dos Deputados aprovou na última quinta, 28/05, um projeto que garante a pais e responsáveis o direito de pedir a internação de adolescentes dependentes químicos em comunidades terapêuticas. Mesmo que a aprovação tenha sido feita de forma simbólica, ela nos mostra a forma obtusa que pautas de saúde pública são tratadas dentro do balaio sociomoral proposto pela política partidária.
É triste como essa simplificação parte de uma dialética que alimenta o sofrimento. Garante-se o direito à internação, mas não se pergunta a qualidade das instituições que farão o acolhimento. Essas violências normalizadas diariamente trazem exaustão ao nosso psiquismo, fazendo com que pareçamos cúmplices por uma não-presença quando, na verdade, notícias deste porte só demonstram o quão atrasados estamos como sociedade, quando não conseguimos impor debates difíceis a partir de nossos direitos, porque estamos cansados demais para elaborações necessárias.
Por mais que entidades estejam à frente para trazer a discussão sobre a luta antimanicomial, é uma luta árdua e cansativa, porque parece que é um tema que não ganha notoriedade, tampouco é um espaço midiático de ideias. O sofrimento torna-se assim, cada vez mais, um produto a ser hermeticamente fechado e endereçado a camadas mais desfavorecidas da sociedade. Alia-se aí o impacto psíquico ao sujeito adolescente, que já é relegado ao status de “rebelde” a partir de uma construção narrativa imposta pela cultura expandida. O resultado só poderia ser catastrófico: jovens que estão em uma idade de experimentações que agora, além de submetidos aos ditames geracionais, são subjugados pela sua curiosidade e pelo descaso de uma construção de ambiente suficientemente bom.
Nota-se também, na matéria, a origem de onde tais proposições geralmente são produzidas. Com a discursiva de um certo acolhimento, entidades religiosas representadas por partidos políticos buscam elementos de diálogo com suas “fés”, usando pautas de representação do sofrimento como estrutura de possíveis conversões, a partir de elementos extremamente fragilizados da sociedade.
É importante lembrar que temos um estatuto (ECA) e um conselho (Conanda) que apontam o retrocesso de tais ações relacionadas a pautas morais, ainda mais este ano, onde elementos que surgem de quatro em quatro anos trazem intervenções midiáticas apenas para tentar suas continuidades no pleito eleitoral, o que, por si só, também é uma prática de violência não apenas com seus eleitores, mas para todo o entorno que transborda necessidades de olhares mais compassíveis, acolhedores e, certamente, menos brutalizantes.
Cabe a nós, mesmo que em pequenos movimentos, estarmos alertas para essas propostas de ódio, envelopadas de acolhidas. Há simbolismo latente suficiente para que possamos olhar além do que está exposto.
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Sandro Cavallote é psicanalista, escritor, professor e comunicólogo. Possui graduação em Comunicação Social (UBC). Especializado em Psicanálise com Adolescentes e Semiótica e Análise do Discurso. Pós-graduado em Psicanálise e Análise do Cotidiano (PUC). Docente do curso de formação inicial em Psicanálise na Escola de Psicanálise de Curitiba. Coordenador e pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Psicanálise e Adolescência (Neppa/EPC). Desenvolve diversos conteúdos, textos, transmissões que envolvam psicanálise, cultura e contemporaneidade. Podcaster em “Psicanálise e Cultura” (6 temporadas). Autor do livro “Mutando – Ensaios sobre psicanálise e adolescência” e de 3 volumes de “Psicanálise e Comunicação”.