Home>Psicanálise>Quando o ídolo convida a...
Quando o ídolo convida a apostar

Adolescência, vulnerabilidade psíquica e avanço das Bets no imaginário juvenil.

O que acontece quando o símbolo de sucesso esportivo e financeiro passa a convidar adolescentes a apostar?

Um jovem jogador, com uma carreira consolidada, torna-se garoto-propaganda. Ele agora é figura presente além dos campos: sua imagem circula por telas, anúncios e redes.  Ídolo em campo, passa a simbolizar o ideal esportivo e financeiro de tantos outros jovens. Esse atleta de sucesso, milionário, referência para a garotada, convida seu público jovem a usar sites de apostas.

O adolescente em transformação

Não por acaso, a força dessa sedução encontra um adolescente em plena transformação psíquica. Seus pais, antes seus maiores heróis, cedem lugar a novos personagens. As referências deixam de estar no ambiente doméstico e passam a ser buscadas fora. Um espaço sem limites, que oferece infinitas formas de identificação.

É justamente nesse espaço sem bordas que o adolescente fica à deriva. Aqueles que exercem as funções de pai e mãe cabe acrescentar mais uma tarefa na educação dos filhos:  oferecer limites que não sejam muros, mas contornos.

Seguindo a metáfora do mar, um barco sem rumo compromete o caminho, o destino e os objetivos. E não faltam sereias nesse mar digital que seduzem os mais atentos marujos.

Freud já dizia que ninguém é mais feliz do que aquele que tem certeza de que é amado. O adolescente, embora pareça que busca se afastar, precisa da presença do adulto.   Essa segurança afetiva é o que permite que, no tempo certo, a separação aconteça.

A travessia e o luto corporal

Desistir de participar do processo de maturidade desse jovem, que está em plena busca de identidade é inverter os papéis: o adolescente terá a dolorosa experiência de lidar com o abandono e sustentar a dor de não ter um ambiente onde ele possa apresentar seus conflitos.

Para muitos pais, o período da adolescência é uma fase com muitos desafios. A criança, que escutava as orientações dos seus responsáveis e cumpria as ordens estabelecidas dentro da sua cultura familiar, passa a desafiá-los e criticá-los. Os pais perdem rapidamente o lugar de referência e isso produz uma ferida narcísica difícil de suportar. Começa uma guerra emocional de poderes e saberes. Os pais se ressentem acreditando que o adolescente está num momento de rebeldia e o adjetivo “aborrescente” entra em cena como uma defesa do adulto diante da perda de controle.

Mas o que está acontecendo com esse jovem é outra coisa: é a chegada a um lugar no mundo que ainda não existe. Mudanças aceleradas revelam um processo ainda sem tradução psíquica.

Uma criança ainda habita seu mundo interno, enquanto seu corpo sofre transformações intensas. Em pouco tempo, meninos e meninas abandonam o corpo infantil e caminham desajeitados rumo a um luto corporal.

As mudanças biológicas podem ser violentas. Um Eu que ainda não sabe onde se apoiar não tem o tempo como aliado. Tudo acontece ao mesmo tempo e agora.

Um maior intervalo poderia oferecer condições de prepará-lo para o novo cenário que já chegou. Mas para desespero da galera, essa travessia acontece sob a pressão da aceleração.

O jovem sente-se exposto em sua singularidade. Sua experiência de entrada na adolescência vem acompanhada de muita angústia. O ambiente externo pode ser muito hostil e ele, ainda despreparado, precisa se defender das constantes invasões do mundo real.

As novas sereias

Entre as ameaças contemporâneas estão a exposição excessiva nas redes, a pornografia, o acesso a drogas lícitas e ilícitas, os jogos de azar e as famosas Bets.

Se antes as sereias eram simbólicas, hoje elas têm nomes, aplicativos e muitas estratégias de marketing refinadas.

Apenas para contextualizar, o ato de jogar em si é estruturante.  O lúdico funciona como ambiente transicional que oferece ao bebê a possibilidade de entender o mundo aos poucos, avançando e regredindo na sua subjetividade. Promove o simbólico e estimula a imaginação.

Jogos colocam a criança frente às regras de tempo e espaço. Mas os jogos de azar exploram outro campo: o da excitação, do fascínio, do impulso. O que antes acontecia em cassinos físicos, loterias e locais de apostas, hoje entra nos lares, nos quartos e nos celulares.

É nesse cenário que as Bets encontram nos adolescentes um público propício para o crescimento milionário do negócio de apostas.

O cenário em números

Provavelmente, você que lê esse texto conhece alguém – paciente, filho, aluno, sobrinho – atravessado pelas perdas emocionais e financeiras ligadas às apostas.

A atualização dos números não acompanha a velocidade das notícias que circulam nas mídias. Os dados precisam ser buscados com frequência, quase mês a mês.

Em outubro de 2025, a pesquisa PoderData apontou que 36% dos brasileiros com mais de 16 anos realizavam apostas esportivas. Desse percentual, 43% estavam na faixa entre 16 e 24 anos — justamente o período que coincide com a travessia adolescente e o início da vida adulta.

Em termos regionais, os números também desmontam certas suposições. Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, a prática se distribui de maneira relativamente homogênea pelo país: 20,4% na Região Sul; 18,2% no Centro-Oeste; 17,6% no Sudeste; 16,5% no Norte; e 15,5% no Nordeste.

O Sudeste, apesar da maior concentração populacional, não lidera isoladamente o ranking, o que revela que o fenômeno não se restringe aos grandes centros urbanos — trata-se de uma disseminação nacional.

De acordo com o Banco Central, apenas em agosto de 2024, beneficiários do Bolsa Família destinaram cerca de 3 bilhões de reais às apostas via Pix. No panorama geral, os apostadores movimentaram aproximadamente 240 bilhões de reais. Os números impressionam — não apenas pelo volume financeiro, mas pelo que denunciam: trata-se de um mercado que cresce sustentado, em grande parte, pela vulnerabilidade.

Apesar de proibidas para menores de 18 anos, as Bets utilizam estratégias estéticas e imagéticas extremamente sedutoras para atrair adolescentes. A associação entre apostas e futebol –  paixão nacional –  ampliou de forma significativa a participação do público juvenil. Os campeonatos regionais não param. A Copa do Mundo bate às portas. O espetáculo cresce. O risco também.

Escrevo do Rio de Janeiro, considerada a Cidade com o maior Carnaval do mundo. Nessa sociedade que tem a vida outdoor como diferencial cultural, as apostas não estavam apenas nos celulares durante a festividade.

Estavam nos desfiles, nos camarotes, nas praias, nos brindes distribuídos ao sol e “protegendo” a cabeça dos banhistas. A marca ocupava o espaço popular, misturando celebração e promessa de ganho. O risco virou fantasia.

Vale aqui pontuar que a exposição a ambientes que promovem jogos de azar e apostas pode configurar violação dos direitos fundamentais, prevista no artigo 243 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Nos bastidores da euforia publicitária, existem muitas histórias que estão acontecendo atrás das cortinas. Recaídas silenciosas, dívidas que ultrapassam cifras inimagináveis, famílias atravessadas por vergonha, desespero e uma angustiante sensação de impotência.

 O valor perdido não é apenas financeiro —  é simbólico.

Adolescência, risco e circuito da recompensa

Do ponto de vista do cérebro, a equação é perigosa. O núcleo accumbens — ligado à dopamina e à recompensa — está em pleno funcionamento. O córtex pré-frontal, responsável pelo controle e pelo cálculo de riscos, só amadurece completamente por volta dos 25 anos ou mais. Euforia e controle não caminham juntos nessa fase.

A dopamina não responde ao resultado da aposta, mas à expectativa. O que está em jogo não é ganhar, mas sentir. E é aí que o vício se instala. Cada recaída revela o quanto o circuito da aposta se alimenta da repetição e da expectativa, não do ganho. O risco foi transformado em jogo permanente.

Os prejuízos que o vício digital causa à saúde mental e financeira dos jovens e das famílias já aparecem na Clínica. Sintomas como ansiedade, impulsividade, distúrbios do sono, queda de rendimento escolar, afastamento do ambiente de trabalho, isolamento social e depressão entram com frequência nos relatos que recebemos.

Já classificado como uma adicção, ele acontece nos mesmos circuitos neurais de outras drogas. O vício em jogos de azar é um transtorno reconhecido pela Classificação Internacional de Doenças desde sua versão 10 (1990). O vício em jogos eletrônicos passou a constar oficialmente a partir do CID-11, adotado internacionalmente em 2022 e que, no Brasil, entrará em vigor a partir de 2027. 

A função do adulto

Diante disso surge a pergunta: o que está acontecendo com esses jovens? Que tipo de mal-estar está sendo capturado por essa engrenagem de apostas, promessas e algoritmos?

Não me parece que o que está sendo capturado seja apenas uma curiosidade, mas a angústia própria de quem ainda não encontrou um lugar simbólico estável. A aposta oferece o que a adolescência ainda não tem: promessa de reconhecimento imediato, sensação de potência e pertencimento. O que se vende não é apenas dinheiro rápido, mas a ilusão de já saber quem se é.

Essas perguntas nos levam imediatamente a outras: qual a função dos adultos diante desse novo tipo de sedução? O que cabe aos pais, educadores e analistas quando o mundo oferece atalhos onde antes havia tempo e espaço?

Se, como lembra Contardo Calligaris, a adolescência é o momento em que o sujeito busca um lugar próprio diante do desejo do Outro, o que acontece quando esse Outro social responde oferecendo risco, dinheiro rápido e aplauso?

Os sinais quase sempre aparecem antes do colapso: mudanças bruscas de humor, segredos excessivos, dinheiro que desaparece, noites insones. Ignorá-los é mais fácil. Sustentar presença é mais difícil.

Oferecer um espaço suficientemente bom em um mundo que promete muitas coisas é fundamental. Ouvir com atenção, sem ironizar ou fazer julgamentos, apontar os riscos de forma sincera, sem moralizar, entender que ao jogar, o jovem busca algo além de questões de caráter, e oferecer palavras onde ele só encontra estímulos superficiais.

A cena ultrapassa os muros domésticos. Existe uma engrenagem cultural sofisticada que aprende a identificar fragilidades e convertê-las em lucro. A lógica das apostas já não é periférica: ela atravessa o cotidiano simbólico dos jovens. O cenário é desigual: de um lado, famílias; de outro, uma indústria que opera com tecnologia, capital e estratégia permanente.

A função dos pais de oferecer contorno, presença e acolhimento continua sendo essencial. Sabemos que a adolescência é um período de mudanças profundas. Também é muito importante reconhecer que muitas famílias não têm suporte emocional para enfrentar sozinhas uma indústria que opera 24 horas por dia. Quando o ambiente social falha em proteger, a responsabilidade não pode ficar só dentro de casa.

Proteger a adolescência exige mais do que vigilância privada. É preciso abrir espaço para debates públicos, criar regras eficientes e estabelecer limites bem definidos, impedindo que as grandes empresas explorem a vulnerabilidade dos nossos jovens. 

Quando o ídolo convida a apostar, não está apenas promovendo um produto. Está participando da construção de um ideal. E na adolescência ideais não são neutros: eles moldam identificações, organizam desejos e podem também capturar fragilidades.

Afinal, a adolescência é uma travessia – e nenhuma travessia deveria acontecer em mar aberto sob o canto de vozes que prometem poderes e conquistas que não se sustentam.

Referências e interlocuções teóricas:

Winnicott, Násio, Freud, Contardo Calligaris, Sonia Alberti.

Dados estatísticos:

Pesquisa PoderData (outubro de 2025).

Banco Central do Brasil.

Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

_

Geiza Maria é psicanalista e Gestora Cultural com especialização em Psicanálise Contemporânea e Gestão da Cultura. Graduação em Marketing e Turismo, com pós-graduação em Gestão Cultural e Psicanálise Contemporânea. Mestra em Psicanálise Contemporânea e Terapeuta em Dependência Química e Saúde Mental.

Adicione um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos obrigatórios estão marcados com *.

2024 Neppa/EPC. Todos os direitos reservados.