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Quando o desejo e a culpa silenciam o que dói vem o excesso

Há pessoas que aprendem muito cedo a ser fortes. Aprendem a corresponder. A ajudar. A não decepcionar. A fazer o que era esperado. Tornam-se responsáveis, competentes e confiáveis. Mas não aprenderam a perguntar a si mesmas — “O que eu quero?” E “O que realmente é meu?” 

Quando o desejo começa a aparecer; escolher outro caminho, ou até  retornar a algo que era prazeroso — transfigura uma sensação congelante — um movimento se agita por dentro; junto com o desejo vem o medo. Medo de falhar diante das comparações que perpetuaram a partir de um ponto crucial invisibilizado do silêncio.

As histórias, muitas vezes, são atravessadas por comparações. Comparações com irmãos, com colegas, com ideais, com versões imaginárias de quem “deveriam ser”. E quanto mais pessoas tentam alcançar esse ideal, mais distantes podem sentir-se de si mesmas. É nesse ponto que o excesso alimentar pode aparecer.

O excesso alimentar não começa na geladeira: começa na tensão interna, na sensação de inadequação, na autocobrança que não tem trégua — na dificuldade de sustentar o próprio desejo sem precisar provar algo. 

Durante o episódio de compulsão vem um efeito imediato: a ansiedade diminui, a cobrança silencia e o vazio parece preenchido. Por alguns minutos a exigência interna cala. Mas depois vem a queda e com ela a vergonha.

Um movimento silencioso que não fala apenas do que foi comido, fala sobre identidade — “O que há de errado comigo? Por que eu não consigo? Eu estrago tudo!” —  Logo na sequência; promessas rígidas, planos radicais, auto críticas duras. 

A culpa tenta restaurar o controle. Mas, paradoxalmente fortalece o ciclo. 

Na compulsão raramente é apenas falta de controle, ela tende a marcar presença como um recurso emocional, é quase uma tentativa de contribuição, ainda que primitiva, para lidar com conflitos que parecem grandes demais.

Conflitos como por exemplo: Querer algo diferente da família, temer não ser tão bom quanto alguém admirado, desejar um caminho próprio e sentir-se egoísta por isso, ou ainda; aproximar-se de algo autêntico e, ao mesmo tempo, ter medo de fracassar. Muitas vezes quando o desejo começa a ganhar força o medo se intensifica. E aí vem a ruminação — E se eu tentar e não for suficiente? E se eu não corresponder? — diante desse medo, o corpo reage.

A compulsão pode ser a maneira mais rápida de aliviar a tensão. Não porque resolve. Mas porque anestesia. O problema é que a anestesia é temporária. Depois dela a vergonha retorna mais forte. A culpa aumenta. E o sentimento de inadequação se aprofunda. O ciclo não é mantido pela comida é mantido por exigências subjetivas marcadas por um limiar.

Enquanto a pessoa acreditar que — tem que ser ou precisa ser — “perfeita” para ter valor, qualquer falha será vivida como prova de insuficiência. E aí podemos pensar em uma pergunta difícil; mas, necessária — “E se a compulsão não for a parte mais fraca de você?”, “ E se ela for a parte de você que está dizendo que você não aguenta mais apenas corresponder?” — Talvez o trabalho não seja só investigar o impulso, mas também investigar o vazio. Refletir de onde vem essa cobrança, reconhecer o peso da comparação, se autorizar a sentir o medo sem imediatamente tentar anestesiar e silenciar para calá-lo. 

A vergonha diminui quando há compreensão, a culpa perde força quando se entende que isso não é uma falha moral, mas comunicação emocional. O processo de reorganização não começa quando a comida para; começa quando se autoriza a não se abandonar com menos julgamento e mais curiosidade. Sustentar o próprio ser pode tornar-se mais difícil do que resistir ao próprio impulso. Mas é ali que algo novo pode nascer, não em uma versão de perfeição, mas em uma versão mais verdadeira; de um eu em mim e não de um eu de mim.

A questão da adaptação

Olhando com mais cuidado, conforme já mencionado, pode-se perceber que a compulsão não é simplesmente falta de controle. Ela pode ser uma tentativa de regulação emocional diante de tensões que não encontram outro destino psíquico. 

Há histórias. Histórias marcadas por exigências elevadas de comparações constantes — explícitas ou implícitas — com rupturas bruscas, separações e desencontros. O ambiente, com sua relevância na vida psíquica, contribui para a sustentação ou não sustentação; implicando diretamente  na forma de posicionamento diante da vida, podendo incidir em dificuldades de reconhecimento do próprio desejo, reconhecimento de si e daquilo que dá sentido para a vida.

Reina a insegurança na possibilidade de existir de um modo próprio, e o medo de decepcionar figuras que possuem uma importante representação na vida do sujeito, tende a perambular de forma árdua em sua psique. Vale aqui uma reflexão — “Expectativa de quem? Para quem? Para que?”. O sujeito aprende a se adaptar, a corresponder e a caber sem a sustentação psíquica para assimilar e regular as ambivalências da vida sem colapsar.

E nesse contexto, o corpo pode então se tornar o lugar onde aquilo que não pode ser expressado encontra uma forma de aparecer.

Identidade, Adolescência e Comparação

Na adolescência, esse cenário se torna ainda mais delicado. A adolescência é uma etapa do desenvolvimento humano em que o corpo está passando por rearticulações. A identidade está em construção e o pertencimento ao grupo ganha enorme importância. Se os ambientes familiar, social, educacional atuam no modus operandi de frequentes comparações entre irmãos e demais familiares, entre colegas ou expectativas idealizadas o jovem ou a jovem pode internalizar a ideia de que nunca é suficiente.

Lembremos que, na adolescência, o Sistema Nervoso Central(SNC) passa por um processo de poda neural, fortalecendo as conexões mais utilizadas e eliminando outras, o que torna o ambiente mais determinante — se o ambiente e as experiências reforçadas ao longo da infância e da adolescência, são aquelas que — privilegiam a comparação, ou a competitividade disfarçada de comparação, ou o atendimento de expectativas que estão além daquilo que se é possível sustentar — se instaura o colapso.

Quando o ser não encontra espaço legítimo ou se confunde o ser com o estar, ele pode ser vivido como inadequação. E os excessos, como o exemplo da comida, pode surgir como caminho silencioso — de alívio rápido — seguido de culpa, atuando como uma maneira de tentar diminuir a demanda de gigantesca energia psíquica que a psique requer para conseguir lidar com esse fenômeno.

O Papel do Campo Familiar

Para pais, mães e cuidadores; talvez a pergunta não seja apenas: “Por que meu filho está comendo assim?”.  Talvez a pergunta possa ser:  “Que lugar ele ou ela tem dentro do nosso âmbito familiar?” Não se trata de realizar — desejos ou devaneios —   mas de promover escuta acolhedora, dar oportunidade de expressão com a finalidade de construir diálogos construtivos que fortaleçam a confiança e contribuam no alicerce psíquico de pessoa com pessoa.

Sem perceber;  famílias, espaços educacionais, meio social e os mais diversos ambientes nos quais a vida se movimenta, constroem  — arquiteturas invisíveis — estruturas feitas de expectativas excessivas, medos, lealdades e modelos de sucesso que podem não se sustentar. Algumas sustentam outras não. 

Quando há pouco espaço para a diferença, a expressão do excesso pode tornar-se uma das poucas formas de comunicação possível. Isso não significa buscar culpados. Significa ampliar escuta, acolhimento, reflexão e respeito para que algo novo possa ser construído.

E por fim, o sofrimento alimentar não fala só sobre comida, em sua arquitetura fala de pertencimento, reconhecimento e autorização para existir de maneira própria na própria vida.

Referências:

VIANNA, M. Da Geladeira ao Divã. Appris, 2016.

WINNICOTT, D. Processos de Amadurecimento e Ambiente Facilitador. Ubu, 2022.

DOLTO, F. Tudo é Linguagem. Martins, 2018

FREUD, S. O Mal-Estar na Civilização. Cia das Letras, 2011.

Imagens: IA Canva
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Janaìna Bueno é Psicanalista, pós-graduada em Neurociência e Comportamento. Atende em Consultório online Adolescentes e Adultos. Sua trajetória profissional atravessa diferentes campos do humano — da experiência corporativa à clínica.

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