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Por que os jovens de hoje não querem “nada com nada”?

Com frequência, escuto adultos afirmarem que os jovens de hoje não querem “nada com nada”. Que quando entram no mercado de trabalho questionam todas as regras e exigem mais direitos sem olhar para os deveres. Que, hoje em dia, é difícil encontrar um jovem que “baixe a cabeça e trabalhe” que faça “de tudo um pouco” sem reclamar. Que muitos são “preguiçosos” e já querem começar como chefes. Mas, afinal, de onde vem tudo isso?

Cresci com meus pais trabalhando dia e noite. Minha mãe era professora, meu pai contador em uma empresa pública. Minha mãe, em certo período da vida, trabalhava 60h por semana na escola e quando estava em casa sentava para preparar aulas e corrigir provas. Eu me divertia ajudando a dar nota para os alunos dela. Meu pai  saía de manhã cedo e voltava no fim do dia, quase sempre com fome e cansado. Durante uma época da minha infância meu pai foi demitido. Então ele e minha mãe decidiram empreender no ramo alimentício, produzindo pães e cucas para vender. Ao mesmo tempo, minha mãe seguia dando aulas na escola, criando três filhos pequenos, preparando e cozinhando as cucas enquanto meu pai embalava e saía para vender. Eu adorava sair com ele e ajudar a dar o “troco” quando vendia os pães. Cresci com esse olhar de que todo trabalho para ser justo e honesto precisa cansar. Cresci vendo meus pais dormindo sentados por não terem tempo de descansar. Cresci com a ideia de que se trabalharmos duro e fizermos o que tiver que ser feito a vida seguirá seu rumo. 

Quando fiz 18 anos meu pai disse que era hora de começar a fazer concursos públicos porque a estabilidade era importante na vida. Foi o que fiz durante alguns anos. Meu primeiro trabalho, aos 18 anos, foi em uma confeitaria. Eu atendia o público, cobrava, arrumava o balcão de doces, recebia entrega de suprimentos, anotava o que estava faltando, arrumava o estoque, limpava as mesas, banheiro, lavava a louça… fazia o que tinha que ser feito porque isso significava trabalhar. Era preciso merecer o salário no fim do mês. Saía do trabalho e ia pra faculdade à noite, chegava em casa cansada. E tinha muito orgulho de mim porque afinal de contas, eu estava no caminho certo. 

Depois desse emprego, tive inúmeros outros, sempre sendo multitarefas e cobrindo onde fosse necessário. Sempre fui elogiada por minha dedicação e disponibilidade nos lugares por onde passei. Mas também, sempre tive muita dificuldade de descansar. De assistir um filme sem me sentir culpada por estar deixando de fazer algo que precisava ser feito. Minha cabeça passava o tempo todo me dizendo que eu estava devendo alguma tarefa, em algum lugar. Quando trabalhei em um banco, meus colegas me apelidaram de “papa fila” porque eu atendia rápido e fazia a fila andar. Me angustiava ter trabalho pendente, então eu não parava de atender nunca. Mas a fila nunca diminuía. Nunca. Ela estava  sempre lá. Uma vez vi uma colega de trabalho surtar pelo excesso de tarefas que assumiu, com vergonha de dizer que não daria conta. Me vi nela. E fiquei com medo. 

Quando me tornei gerente no banco, fazia seleção de estagiários. Todos muito jovens, iniciando suas vidas adultas no mercado de trabalho. E algo que parecia ser comum a quase todos era a sua falta de iniciativa e interesse para aprender o trabalho. Isso me incomodava muito. 

Depois disso, voltei a trabalhar com jovens e escolas. E então decidi que era importante tentar entender essa nova forma de se relacionar com o trabalho que os jovens atuais vinham nos mostrando. Comecei a escutá-los com mais atenção e curiosidade e menos crítica. E o que ouvi, por mais estranho que possa parecer, começou a fazer sentido. É sobre essa escuta que quero conversar com você, leitor. 

A relação que os adultos estabelecem com o trabalho vai moldar a forma como as crianças e jovens passam a enxergar essa relação “entrego-recebo”. Se os adultos se referem ao trabalho como algo difícil, exaustivo e pouco prazeroso, essa será a visão que irá se consolidar na mente dos jovens. Com o início da onda de “empreendedorismo”, “seja seu próprio chefe” “faça seu próprio horário, trabalhe a hora que quiser” podemos observar uma precarização nas relações trabalhistas, onde o indivíduo recebe toda responsabilidade de sucesso e enriquecimento, como se não fosse afetado pelo ambiente e relações sociais externas. 

Nossa sociedade contemporânea tem sido marcada por um regime de funcionamento que exige desempenho contínuo, disponibilidade permanente e autogestão do sucesso e do fracasso. Byung-Chul Han nomeia esse modelo como sociedade do cansaço, quando o sujeito deixa de ser oprimido por uma autoridade externa e passa a explorar a si mesmo. A nova ideia já não é “obedeça”, mas “produza, realize-se, seja feliz”. Essa lógica produz sujeitos exaustos, culpabilizados pelo próprio adoecimento e incapazes de sustentar pausas sem vivenciá-las como falha. Simples assim. 

O aumento expressivo dos quadros de burnout, ansiedade e depressão não pode ser lido apenas como um fenômeno individual ou clínico, mas como efeito direto desse modo de organização social. O sofrimento deixa de ser reconhecido como resposta a condições objetivas de excesso e passa a ser tratado como insuficiência pessoal. Estamos cada vez mais cansados, insatisfeitos e culpados quando o corpo ou a mente falha. 

É nesse contexto que os adolescentes aparecem questionando esse modelo de vida. O “não querer nada”, a recusa em aderir plenamente à lógica do desempenho ou o desinteresse frente aos projetos idealizados pelos adultos podem ser lidos como formas de resistência subjetiva. Ao não se engajarem totalmente em um sistema que adoece, os jovens colocam em xeque a naturalização do cansaço como norma. O que frequentemente é interpretado como preguiça, desinteresse ou falta de ambição pode ser, do ponto de vista psicanalítico, um gesto de preservação do desejo e da vida psíquica, de uma outra vida que nós adultos não conseguimos ver. E a tudo que nos é estranho, criticamos. 

A adolescência, enquanto tempo de reorganização subjetiva e de confronto com os ideais do Outro, torna-se especialmente sensível às contradições desse modelo social. Quando o futuro é apresentado como promessa de exaustão, competitividade permanente e adoecimento, a suspensão do investimento não é irracional. Ela aponta para um impasse ético e subjetivo: porque desejar um mundo que não oferece lugar para o descanso, para diversão, para a dúvida e para o fracasso? Assim, os jovens não apenas sofrem os efeitos da sociedade do cansaço, mas também a interrogam, expondo suas fissuras e seus limites.

O “não querer nada” não é vazio, é defesa.

A queixa recorrente de que os adolescentes “não querem nada” costuma ser formulada a partir de um olhar adulto que lê o recuo, o silêncio ou a aparente apatia como desinteresse. Do ponto de vista psicanalítico, especialmente na clínica contemporânea, esse “nada” não indica ausência de desejo, mas uma operação defensiva. Trata-se de uma resposta subjetiva ao excesso: excesso de exigências, de expectativas, de ideais de sucesso e de convocações à performance. Diante de um Outro vivido como invasivo ou impossível de satisfazer, o sujeito adolescente pode responder pela retirada libidinal, pelo adiamento do investimento ou pela recusa em desejar. 

Falha de escuta, excesso de exigência e precariedade do laço.

O sofrimento dos jovens na atualidade se organiza, em grande parte, a partir de uma falha da escuta. Escuta aqui não se reduz a ouvir, mas a reconhecer o adolescente como um sujeito de palavra e de conflito. Em um contexto marcado pela aceleração, pela medicalização das condutas e pela normatização dos afetos, o mal-estar tende a ser rapidamente traduzido em déficit, transtorno ou desvio. Soma-se a isso o excesso de exigência: o imperativo de desempenho, autonomia precoce e felicidade constante. O laço social, fragilizado, oferece pouco amparo simbólico para sustentar a travessia adolescente. O resultado é um sofrimento que muitas vezes se expressa por atos, pelo corpo ou pelo apagamento subjetivo, mais do que pela palavra. 

Sándor Ferenczi, psicanalista húngaro, irá nos trazer questões centrais para pensar a adolescência na contemporaneidade. Em Confusão de línguas entre os adultos e a criança (1933), ele denuncia a violência produzida quando o adulto impõe sua linguagem, seus tempos e seus sentidos ao sujeito em constituição. Essa crítica ao adultocentrismo permanece atual: o adolescente é frequentemente silenciado quando sua experiência não se encaixa nas categorias adultas de normalidade, produtividade ou maturidade. A violência simbólica se manifesta quando o sofrimento é desmentido, minimizado ou interpretado sem escuta.

Então, quais são os caminhos a partir de agora? Taí uma boa pergunta que, inclusive, escuto muito na clínica de pais de adolescentes: o que eu faço então? Como boa psicanalista que sou (risos) não tenho uma resposta para essa pergunta. Acredito muito que o caminho para descobrirmos está na escuta coletiva entre pais e filhos. É preciso deixar um pouco de lado a ideia de “suposto saber” e abrir espaço para as dúvidas, medos e inseguranças do futuro e começar a construir algo novo. E, quem sabe, devêssemos nos perguntar por que estamos insistindo tanto em um modelo que tem nos adoecido e gerado tanto sofrimento psíquico. Será que existem outras possibilidades? Para nós, adultos, muitas vezes é difícil visualizar outros caminhos. Mas para os jovens não. Então, que tal abrir um diálogo e ver aonde chegamos? Acredito que se formos juntos, em parceria, um segurando a mão do outro, nos apoiando nos erros e acertos,  encontraremos, talvez, uma nova forma de nos relacionarmos com o trabalho. Porque, no final, às vezes, não querer nada com nada é tão gostoso!


Referências

Han, B.-C. (2015). Sociedade do cansaço. Vozes.

Ferenczi, S. (1933/2011). Confusão de línguas entre os adultos e a criança. Martins Fontes.

Birman, J. (2014). Mal-estar na atualidade. Civilização Brasileira.

*Imagens gerada por IA.

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Gabriela Braun é psicanalista e mediadora de conflitos na escola. Pós-graduação nas áreas de psicologia infantil, neuropsicologia, infância e adolescência e Psicanalise clinica. Co-apresentadora do podcast do Neppa: Sepápod?! Professora na pós graduação de psicanalise e adolescência da EPC. Escritora.

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