O primeiro voto costuma chegar meio atravessado: entre a curiosidade, a dúvida e até um certo desinteresse. Não é raro ouvir que “não faz diferença” ou que “política é tudo igual”. Mas, para além dessas frases prontas, tem algo importante acontecendo aí. Falar sobre o primeiro voto é falar das primeiras escolhas que começam a ganhar peso real na vida, de escolhas que já não podem ser totalmente terceirizadas. Nesse ponto, espaços como o Neppa/EPC (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Psicanálise e Adolescência) cumprem uma função importante: operar como um organizador simbólico, um lugar onde o jovem pode circular por ideias, tensionar certezas e começar a construir critérios próprios. Não se trata de dizer em quem votar, mas de sustentar um espaço onde escolher possa, de fato, acontecer.
Afinal, adolescência é movimento, é dúvida, é incerteza. E começar o quanto antes a lidar com angústia das escolhas (e de como elas afetam o coletivo) é parte do processo de desenvolvimento humano.
O voto na adolescência está longe de ser apenas um procedimento burocrático dentro da democracia. Ele pode ser entendido como um marco simbólico de inserção no mundo. É quando o jovem começa a sair do lugar de alguém sobre quem as decisões recaem (na escola, na família, nas políticas públicas) para ocupar, ainda que de forma inicial, uma posição de participação e implicação no coletivo.
Do ponto de vista psicanalítico, isso não é pouca coisa. A adolescência é um tempo de reconfiguração subjetiva intensa, em que o sujeito revisita sua relação com a autoridade, com as normas e com os ideais que herdou. Votar pode operar como um gesto que desloca essa dinâmica: não se trata mais apenas de concordar ou se rebelar, mas de sustentar uma escolha. E escolher implica lidar com ambivalência, com incerteza e com responsabilidade, dimensões fundamentais na constituição psíquica. Não existe voto “puro” ou totalmente garantido, assim como não existe escolha sem conflito. E é justamente aí que o ato ganha consistência.
A partir destes processos (muitas vezes, inconscientes), as relações familiares ocupam um lugar central e, ao mesmo tempo, tensionado. A política muitas vezes aparece na mesa de jantar, nos grupos de mensagem, nos comentários atravessados do dia a dia. Há famílias que funcionam quase como “bolhas algorítmicas”, em que todos compartilham as mesmas opiniões e reforçam mutuamente suas certezas. Outras operam mais como um feed caótico, cheio de vozes divergentes, onde o conflito é inevitável. Em ambos os casos, o adolescente se vê diante de um desafio importante: o de se posicionar.
Nesse cenário, a educação midiática se torna uma ferramenta indispensável. Não apenas para “identificar fake news”, mas para compreender como os discursos são construídos, editados e direcionados. Hoje, com a circulação massiva de conteúdos manipulados e vídeos gerados por inteligência artificial, muitas vezes extremamente verossímeis, o jovem é constantemente convocado a reagir antes mesmo de conseguir elaborar. Essas produções frequentemente oferecem saídas fáceis, respostas rápidas e afetos prontos como indignação, medo, pertencimento, raiva e até vingança, operando uma captura da subjetividade que dispensa o pensamento. Desenvolver uma leitura crítica da mídia, portanto, não é só uma habilidade técnica, mas um trabalho psíquico e ético: aprender a sustentar a dúvida, a checar fontes, a desconfiar do que parece evidente demais e, sobretudo, a não abrir mão do próprio processo de construção de sentido.
E é esperado (e até necessário) que esse posicionamento não seja uma simples reprodução do que vem dos cuidadores. Crescer implica, em alguma medida, deslocar-se dessas referências, experimentar outras leituras, testar outras identificações. Isso não significa romper ou desqualificar o que foi transmitido, mas poder transformar esse material em algo próprio. Quando o jovem escolhe diferente da família, não é necessariamente um problema: pode ser um sinal de que o processo de subjetivação está em curso.
Na dimensão educacional, o envolvimento com o voto problematiza (com razão) o modelo tradicional de aprendizagem. Ele exige leitura crítica, interpretação de discursos, análise de interesses e reconhecimento das contradições sociais. O adolescente deixa de ser apenas consumidor de informação e passa a ser convocado a produzir critérios, a sustentar um posicionamento. Isso desloca o eixo da educação de uma lógica meramente reprodutiva para uma experiência mais ativa e reflexiva.
Mas é importante colocar um ponto de tensão aqui. Vivemos um cenário em que as ideologias circulam de forma altamente direcionada, muitas vezes simplificadas e embaladas para rápida adesão — especialmente nos ambientes digitais. Há uma captura do sujeito que antecede o próprio pensamento, oferecendo pertencimento imediato em troca de pouca elaboração. O risco não é ter posição, mas aderir sem atravessar o processo de construção dessa posição. E isso é fundamental.

Formação crítica não se resume a “ouvir os dois lados”. Ela passa pela capacidade de sustentar a dúvida, de investigar, de suportar o desconforto de não saber imediatamente. A identidade do sujeito não se constrói pela repetição de discursos prontos, mas pelo encontro com o conhecimento — um conhecimento que desestabiliza, que exige trabalho psíquico, que convoca à elaboração.
Ir além do político-partidário e obviedades como o vazio narrativo de termos como polarização, lado opostos, inimigos, esse tipo de retórica que nos assola a partir do desamparo e do ressentimento. Portanto, não é negar a política institucional, mas recusar uma relação superficial com ela. É entender que o voto é uma porta de entrada para algo maior: uma inserção no mundo, uma forma de se posicionar diante das desigualdades, das políticas públicas e das formas de organização da vida coletiva.
No fim das contas, votar é menos sobre “escolher alguém” e mais sobre começar a construir um lugar próprio no mundo: um lugar que não vem dado, mas que se produz ao longo do tempo, com estudo, questionamento e implicação.
E talvez possamos inserir ao final algumas provocações finais:
Aos cuidadores: o direito ao voto não é apenas um dispositivo legal, é também um operador de formação. Incentivar, conversar, sustentar o diálogo, mesmo nas divergências. É parte fundamental do processo democrático dentro de casa. Não se trata de conduzir a escolha do jovem, mas de não esvaziar a importância desse momento, como se fosse algo secundário ou irrelevante.
Aos jovens: participar da vida cívica não é um detalhe, é uma das formas mais concretas de existir no laço social. A democracia não se sustenta apenas nas grandes decisões, mas nesses gestos inaugurais, ainda atravessados por dúvida, contradição e descoberta. O primeiro voto não precisa ser perfeito, mas precisa ser seu.
E, para quem ainda não tirou o título de eleitor, fica o lembrete com peso de ato: o prazo final é 6 de maio.
Imagens: IA
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Sandro Cavallote é psicanalista, escritor, professor e comunicólogo. Possui graduação em Comunicação Social (UBC). Especializado em Psicanálise com Adolescentes e Semiótica e Análise do Discurso. Pós-graduado em Psicanálise e Análise do Cotidiano (PUC). Docente do curso de formação inicial em Psicanálise na Escola de Psicanálise de Curitiba. Coordenador e pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Psicanálise e Adolescência (Neppa/EPC). Autor do livro “Mutando – Ensaios sobre psicanálise e adolescência.