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O ANALISTA NÃO ESTÁ SOZINHO: TRAVESSIAS E MARÉS NA CLÍNICA DA ADOLESCÊNCIA

“Nada do que foi será

 De novo do jeito que já foi um dia

Tudo passa

Tudo sempre passará“[…]

Todo início de ano nos convoca a uma pausa necessária: temos uma tendência natural a avaliar a jornada do ano anterior e a criar novas rotas, metas e projeções. Quando trazemos esse movimento para o contexto de quem cuida do adolescente, a reflexão ganha ainda mais profundidade. Como diz a canção, na vida e, eu diria, especialmente nesta fase, tudo é movimento. O calendário vira, mas as questões pulsantes da adolescência continuam a nos interrogar, exigindo que nos reinventemos diante de tudo o que “não será de novo do jeito que já foi” ou do jeito que projetamos ou como “na nossa época”.

Agora, após o recesso da clínica e as férias das aulas, chegamos a este precioso “respiro do começar”. Enquanto pais, familiares, psicanalistas, educadores e profissionais que focam no acolhimento de quem está nessa fase, precisamos retomar nossos lugares com o fôlego renovado (o que nem sempre é amplamente possível), mas cientes dos desafios. Como tudo isso reverbera nos papéis que exercemos diante, com e para os adolescentes? É preciso amor, sensibilidade, coragem, técnica, estudo e suporte para sustentar esse encontro.

Afinal, atender adolescentes é, muitas vezes, navegar por águas turbulentas sem mapa, onde o silêncio e os excessos (inclusive o das telas) desafiam a técnica clássica e nos lembram da fluidez constante desses mares. Como diz o poeta, vivemos numa dinâmica em que: “Tudo que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo…Tudo muda o tempo todo no mundo”.

Foi justamente a busca por uma bússola teórica para navegar nessas águas que me levou ao NEPPA (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Psicanálise e Adolescência). Ao longo de três semestres, venho vivenciando uma travessia coletiva que transforma a minha escuta, revelando que o estudo entre pares é o suporte vital para oferecermos uma presença de qualidade no turbilhão da puberdade. Percebi, enfim, que o analista não precisa (e não deve) estar sozinho diante das ondas.

Quero, portanto, trazer a este espaço um recorte das minhas vivências, um relato de experiência sobre a clínica com adolescentes. Mais do que um texto técnico, este é um convite para você refletir conosco, de coração a coração, sobre as angústias, as belezas e a ética de se fazer presente na vida de quem busca construir seu lugar em um mundo que não para de mudar, onde muitos desses processos são atravessados pelo boom tecnológico e pelo espelho dos algoritmos.

1-O Tempo do Despertar: o encontro com o Real e a Escrita no Corpo

No NEPPA, uma das minhas primeiras experiências formativas foi a de deslocar o olhar da “certidão de nascimento” para a estrutura do adolescente: compreender que a adolescência não é apenas uma fase cronológica ou uma maturação biológica, mas um tempo lógico. Entendi que esse tempo é o momento em que a infância é ressignificada e, muitas vezes, abalada pela urgência do presente.

Discutimos profundamente o conceito de “despertar da primavera”, referência que Lacan faz à peça de Frank Wedekind, tema também explorado por Dolto e Le Breton. Esse despertar não tem nada de romântico; ele carrega uma dose de susto, um encontro abrupto com o Real do sexo. O adolescente descobre que não há manual de instruções para lidar com a sexualidade. Há um furo no saber, um vazio de respostas que gera angústia.

Como nos alertava Sigmund Freud em seus Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, especificamente em As Metamorfoses da Puberdade, há algo de radicalmente “novo” que invade o corpo. A tensão sexual rompe a homeostase infantil e torna o próprio corpo estranho ao sujeito. Vimos nas discussões do Neppa que, quando a bateria de significantes da infância não é suficiente para nomear essa invasão, o adolescente convoca o corpo a responder.

Assim, os cortes (escarificações), a recusa alimentar na anorexia ou os excessos da toxicomania deixam de ser vistos apenas como “rebeldia” ou desordem. Teoricamente, compreendemos esses atos como tentativas desesperadas de fazer uma borda para um gozo que transborda. Onde a palavra falta, o ato entra em cena: o adolescente tenta escrever na própria pele uma cartografia da dor, buscando localizar um sofrimento que a linguagem ainda não capturou. Quando o adulto exige a justificativa ou a explicação matemática dos atos, gera-se mais desconexão e isolamento, aprofundando o sofrimento psíquico.

2-Do Silêncio do Quarto à Normalidade da Crise

A trajetória de investigações do NEPPA tem se desenhado como um percurso contínuo de aprofundamento, onde cada leitura fundamenta a seguinte. É imprescindível recordar que nosso olhar clínico foi primeiramente alicerçado, em 2024, pelo estudo de “Uma breve história da adolescência”, de David Le Breton. A obra nos ofereceu as lentes antropológicas e sociais necessárias para compreender a adolescência não apenas como um fato biológico, mas como uma categoria histórica em constante mutação e um reflexo sensível de sua época. Foi essa compreensão macro, qual seja a de que o adolescente encarna as tensões de seu tempo, que pavimentou o caminho para que pudéssemos, na sequência, mergulhar nas especificidades do sofrimento atual.

Destarte, vale ainda destacar que, nossas discussões no Neppa, nesse último ano, avançaram para compreender os fenômenos contemporâneos que desafiam a clínica. Ao estudarmos, por exemplo, “A Geração do Quarto”, de Hugo Monteiro Ferreira, pudemos lançar luz sobre o enigma do retraimento. Compreendemos que o adolescente que se tranca e substitui o laço social pela vida digital não está apenas em um “vazio”; ele está, muitas vezes, vivenciando um sofrimento psíquico intenso. O estudo nos permitiu escutar que esse silêncio do quarto é, paradoxalmente, um grito de quem busca amparo diante do desamparo. E analisamos que tudo isso é atravessado por questões macrossociais, políticas, econômicas e culturais também.

Chegamos então a 2026 e nos direcionamos a mudar a dinâmica dos encontros de estudo, mas também começamos a revisitar o clássico conceito de “Síndrome da Adolescência Normal”, de Mauricio Knobel. Essa literatura nos lembra que o “caos”, as idas e vindas, a agressividade e a fragilidade, não é necessariamente sinal de processo patológico, mas estrutural. Entender a “normalidade” dessa crise da adolescência nos ajuda, como analistas, a não patologizar o que é parte essencial do trabalho de luto e de reconstrução identitária.

Todo este debate tem sido ampliado nos seminários do NEPPA. Eu tive oportunidade de participar de dois deles, dialogando sobre transtornos alimentares e sobre o atendimento a comunidade surda. Vou comentar sobre eles mais adiante. Quero convidar vocês a abrir um pouquinho o portfólio desses encontros do Neppa. Vamos juntos?!

3-O Manejo Clínico: suportar o Não-Saber

Pensemos em como sustentar a transferência nesse fio da navalha, entre o silêncio do quarto e o barulho dos atos? A troca de experiências no Neppa me ensinou que a posição do analista exige uma ética de “parceiro”. Não o parceiro que educa, mas aquele que suporta o não-saber.

Venho aprendendo que precisamos ter condição para aguentar o vácuo e a angústia de ver os adolescentes, por vezes, tateando no escuro. O estudo de diversos autores em grupo nos fortalece para funcionar como uma presença constante, que aposta que, daquele turbilhão pulsional, um sujeito está tentando se inventar.

Mas, cá pra nós, vocês chegaram até aqui e, acredito mesmo que desejam pensar comigo sobre por que nós analistas na clínica para o adolescente precisamos do grupo de estudos e pesquisas…

Talvez a maior contribuição do NEPPA para minha formação tenha sido a compreensão de que o analista não pode estar sozinho. Há uma solidão estrutural no nosso ofício, mas ela não precisa ser sinônimo de isolamento.

             O grupo vem funcionando para mim como um cais. É para lá que levamos os “restos” da semana frenética, os impasses clínicos, as dúvidas sobre literaturas, a indicação de arte que refrata o real e a clínica e etc. Ao debatermos sobre a literatura com os pares, por exemplo, lembrando-nos que a psicanálise se faz com frestas, não com certezas fechadas.

4-O Olhar para o Agora: debates urgentes e a escuta renovada

4.1-A Função Social e Científica dos Seminários do NEPPA

Os Seminários do NEPPA cumprem uma missão que é, indissociavelmente, científica e social. Do ponto de vista científico, sustentamos o rigor da transmissão, abraçando a complexidade dos novos sintomas, com a sensibilidade e a seriedade teórica que eles exigem. Em sua dimensão social, estes encontros rompem os muros do consultório: ao abrirmos o debate, instrumentalizamos a rede de proteção para decifrar o sofrimento do adolescente. É a psicanálise na sua vocação política, transformando a angústia paralisante em ferramentas de acolhimento. Afinal, como diz o poeta, “não adianta fugir nem temer”; precisamos encarar as ondas do tempo para não naufragar no isolamento de um saber que é, na verdade, um constante vim-a-ser. E no seminário, todos são bem vindos: familiares, profissionais, todos os que estão interessados em acolher, compreender, dar suporte aos adolescentes, todos os que se debruçam sobre os contextos educacionais, formativos, de saúde, de desenvolvimento integral nesta fase da vida.

Neste espaço, vou comentar sobre os dois seminários que participei. No II Seminário do NEPPA (2024), mergulhámos no tema “Adolescência: desafios, afetos e necessidades na travessia para a construção do Eu”. Tive a honra de participar como palestrante, articulando como essa “travessia” não é um processo meramente biológico, mas uma exigência psíquica de reescrita da própria história. Sob o título “Transtornos alimentares na adolescência: reflexões psicanalíticas”, discuti como o corpo se torna o palco de uma escrita urgente e dolorosa quando a palavra falta. Defendemos que o adolescente necessita de um “lugar” simbólico para depositar as suas dores enquanto o seu “Eu” ainda está em obras; um cais seguro onde o sofrimento possa encontrar um contorno que não seja apenas o da patologia, o do laudo, o do “leito de procusto” imputado socialmente, inclusive pelo algoritmo.

Aprofundando a nossa investigação, o III Seminário (2025) trouxe o tema “Entre pertencimentos e rupturas: a busca por identidades na adolescência”. Foi um olhar urgente para a comunicação imagética e as novas subjetividades, dissecando a “pele que habita o adolescente” num mundo onde “tudo muda o tempo todo”. Novamente na posição de palestrante, apresentei o trabalho “A clínica psicanalítica e as identidades surdas na adolescência”, pontuando como os sintomas atuais, os quais se estendem do silêncio do quarto à hiper exposição nos algoritmos, exigem uma escuta sensível às diferenças. Falar sobre as identidades surdas reafirmou o compromisso ético de estar atenta às novas raízes e manifestações do sofrimento. Consolidámos que a identidade não é um dado pronto, mas uma construção complexa que demanda um lugar de fala protegido.

O trabalho do NEPPA reverbera, assim, muito além do círculo acadêmico. Ele é um caminho que renova e fortalece a clínica do adolescente, ao instrumentalizar o analista a suportar o Real que o adolescente apresenta. O Neppa também se torna bússola para a escola, ao oferecer ferramentas para que educadores compreendam o aluno para além do “mau comportamento”. E, ainda, é espaço de amparo para as famílias, que encontram neste saber um apoio para lidar com os lutos da trajetória infância-adolescência.

Minha participação ativa nos seminários reitera o compromisso de construir pontes, pois compreendo que, na maré da vida, “tudo que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo”, e a nossa escuta precisa de se renovar a cada onda, se atualizar a cada demanda, estar implicada com o adolescente e suas necessidades constitutivas/existenciais.

4.2-A voz que circula: Sepápod?! o podcast do NEPPA/EPC

Para além dos muros da academia e do silêncio do consultório, o NEPPA compreendeu que a psicanálise precisa ocupar as redes, fazendo a palavra circular onde o sujeito contemporâneo está. O Podcast do núcleo surge como uma ferramenta potente de democratização do saber, furando a bolha institucional para levar a escuta analítica a pais, educadores e aos próprios adolescentes. É um caminho que transforma a densidade da teoria em conversa viva, provando que a psicanálise não precisa ser hermética para ser rigorosa; ela pode e deve ecoar nos fones de ouvido como um convite à reflexão sobre o mal-estar da nossa época.

Toda essa engrenagem de transmissão só flui com tanta leveza graças à condução sensível das organizadoras, Carol Miranda e Gabi Braun. A dinâmica que elas propõem foge da rigidez da “palestra” ou da frieza da “entrevista técnica”. Elas criam, no ar, um ambiente de acolhimento e transferência de trabalho que deixa o convidado à vontade para tecer seu pensamento. A forma como Carol e Gabi costuram as perguntas e sustentam o diálogo permite que o saber surja não da posição de mestre, mas do encontro, tornando o podcast um espaço de troca genuína onde a amizade e o rigor teórico caminham de mãos dadas.

Uma das características marcantes de uma das temporadas do podcast está no foco na cultura — filmes, livros e séries — como instrumental para ler a clínica. Ao invés de falar da patologia de forma diretiva, o podcast propõe olhar para a ficção para entender a realidade. Ao debaterem obras que retratam o sofrimento, as crises e os impasses da adolescência, os episódios funcionam como espelhos onde a sociedade pode se reconhecer. É a psicanálise saindo da teoria pura e mostrando como ela pode iluminar a compreensão das narrativas que nos rodeiam.

Tive a alegria de ser convidada para ocupar esse microfone e debater um tema que me atravessa profundamente como nutricionista e psicanalista em constante formação: a anorexia. A partir do filme “O Mínimo para Viver”, conversamos sobre a imagem corporal para tocar no cerne da questão psicanalítica: a anorexia como uma tentativa desesperada de “comer o nada” para manter o desejo vivo ou como uma recusa radical a um Outro que sufoca. Discutir as cenas do filme nos permitiu ilustrar como, na clínica, o corpo esquálido/depauperado está gritando uma dor familiar que precisa ser escutada, não apenas “alimentada”. Foi uma oportunidade preciosa de entrelaçar minha escuta com a sétima arte, reafirmando que, muitas vezes, o cinema consegue dizer o que a teoria ainda está tateando para explicar.

4.3-  O Boletim NEPPA

O Boletim do NEPPA, lançado em março de 2025 sob a coordenação dedicada de Luciana Sianto, representa mais um braço vital da nossa intenção em democratizar a psicanálise. Idealizado por Sandro Cavallote e Fabrício Tavares, o projeto conta com uma equipe editorial comprometida, composta por Luciana Sianto, Camila Manga, Gabi Braum e por mim. A equipe trabalha para que o saber psicanalítico alcance um público diverso e vá além dos limites acadêmicos. Embora a dinâmica frenética da vida nem sempre tenha me permitido uma contribuição substantiva em todas as edições, acompanho e celebro cada publicação como um espaço de resistência e de circulação da palavra, de forma acessível e potente.

Um dos diferenciais mais tocantes deste boletim, na minha opinião, é a abertura de um canal direto para a expressão subjetiva dos próprios adolescentes. Ao acolher desenhos e poemas, o NEPPA permite que o adolescente ocupe o lugar de autor de sua própria história, transformando o boletim em um mosaico vivo de subjetividades. Ver a arte adolescente ganhar espaço nestas publicações reitera que a psicanálise não deve apenas falar “sobre” o adolescente, mas, acima de tudo, oferecer um palco para que ele se manifeste. É, portanto, mais um caminho de acolhimento que transforma o silêncio em imagem e verso, reafirmando que onde há espaço para a arte, há caminho para a vida.

4.4- Imersão na Clínica Contemporânea: diálogos entre a teoria e o agora

Participar do curso “Psicanálise e Adolescência na Clínica Contemporânea” foi uma experiência incrível e divisora de águas na minha formação. Idealizada pelo psicanalista Sandro Cavallote, a proposta oferece uma verdadeira imersão no desenvolvimento histórico do adolescente, mas com um olhar profundamente fincado nas subjetividades do agora. Ao longo das aulas, somos convidados a construir uma visão moderna que cruza os elementos basilares da psicanálise clássica com as nuances urgentes da atualidade. É um espaço onde a teoria não fica estática; ela se movimenta para alcançar as novas formas de sofrimento e de existência dos nossos adolescentes.

Como aluna, pude perceber como o manejo clínico ganha novos contornos quando nos debruçamos sobre temas tão presentes no cotidiano: desde a complexa relação com as redes sociais e as adicções, até os grupos identificatórios e as novas formas de comunicação. Sandro, com sua postura sempre acolhedora e problematizadora, conduz o grupo por esse território de incertezas com maestria, abrindo espaços para que cada um de nós possa amadurecer a escuta. O curso não apenas entrega conteúdo, mas propõe uma reflexão ética sobre o acolhimento nas estruturas familiares e educacionais, transformando a maneira como ocupamos nossos lugares diante dos impasses da adolescência hoje.

4.5-O Saber em Movimento: A experiência docente no NEPPA

Se o grupo de estudos é o solo onde enraizamos, firmamos e expandimos saberes, a sala de aula da Pós-Graduação torna-se a correnteza que leva o saber adiante. Ao assumir a disciplina “A Clínica dos Excessos”, deparo-me com o imenso desafio de ensinar sobre aquilo que, por definição, transborda. É um convite a sair da posição de escuta para a responsabilidade da transmissão, ocupando um lugar que exige movimento.

Aqui o ponto de partida diante da turma será o de considerar que a docência não é o lugar da resposta pronta, mas da pergunta sustentada. Transmitir o manejo dos excessos não significa ensinar a construir diques para represar a pulsão, mas sim a desenhar margens onde a vida possa fluir sem se afogar. É um exercício de contorno, onde tentamos dar forma simbólica àquilo que chega como pura intensidade.

Nessa troca constante com os pares, pretendo construir conjuntamente a compreensão de que o saber psicanalítico é água viva: ele só se mantém potente se não estancar. A experiência de sala de aula, nesses quase trinta anos de docência, sempre me revela que aceitar esse fluxo é entender que ensinar é, antes de tudo, uma forma de continuar aprendendo a contornar, por vezes, o impossível, o ainda indizível.

5- Onde a escuta ganha espaço

Minha caminhada no NEPPA — seja no grupo de estudos, na pós-graduação ou no curso “Psicanálise e Adolescência na Clínica Contemporânea” — é profundamente marcada pela presença e pela orientação de Sandro Cavallote. Como idealizador e coordenador, Sandro exerce uma função que vai muito além da transmissão técnica. Participar de suas aulas como aluna é vivenciar uma psicanálise viva, onde o rigor teórico nunca se distancia da dimensão humana. Sandro é a figura que sustenta a estrutura desses espaços, permitindo que o saber circule de forma ética e potente.

A marca do seu ensino é o acolhimento aliado à inquietação. Sandro sempre se mostra acolhedor e problematizador, uma combinação rara que nos retira da zona de conforto sem nos deixar desamparados. Ele não entrega respostas prontas; em vez disso, propõe reflexões que nos convocam a pensar a clínica contemporânea da adolescência em toda a sua complexidade. Suas intervenções abrem, verdadeiramente, espaços para que cada aluno e profissional possa existir em sua singularidade, trazendo suas questões e impasses para o centro do debate.

Sob sua coordenação, o Neppa experimenta um amadurecimento constante. Sandro sabe dosar a provocação necessária para o crescimento acadêmico com o cuidado fundamental para o fortalecimento do laço grupal. É através desse estilo de transmissão que o coletivo avança, transformando o estudo em um processo de maturação não apenas profissional, mas subjetivo. Estar sob sua orientação é aprender que a formação é um percurso que se faz com o outro, em um espaço onde o desejo de saber é incentivado, mas o ritmo de cada um é respeitado. Essa sabedoria ecoa na frase que Sandro costuma nos dizer diante das angústias do fazer científico: “Vá no seu tempo”. Com ele, aprendemos que o rigor da técnica nunca deve atropelar a delicadeza do processo, pois é na pausa e no respeito ao próprio tempo que o saber analítico verdadeiramente se sedimenta.

6- A ética do cuidado na jornada em pares

Esta jornada em pares é, antes de tudo, o reconhecimento de que ninguém atravessa o mar aberto do inconsciente sem um porto onde ancorar a palavra. O Neppa é um suporte que pode ancorar o trabalho do analista. Na clínica da adolescência, essa interlocução é fundamental para transformar o impacto do encontro com o adolescente em possibilidade de manejo clínico.

Caminhar com o outro é descobrir que a angústia, quando compartilhada, perde o seu peso e ganha a leveza da pergunta. É no olhar do colega, na escuta atenta do par e na generosidade da troca que o isolamento do consultório se transforma em uma “solidão habitada”. Aprendemos que a ética do cuidado não se sustenta apenas na técnica, mas na coragem de sermos, juntos, testemunhas do despertar do outro.

Essa travessia coletiva nos ensina que o saber psicanalítico é como uma colcha de retalhos: cada experiência trazida pelo par empresta uma cor nova à nossa própria escuta. No NEPPA, descobri que a beleza dessa jornada reside na humildade de não saber sozinho e na potência de crescer em coro. Porque, ao final do dia, o que sustenta o analista não é a armadura da teoria, mas a mão estendida de quem, ao seu lado, também aposta na vida que insiste em florescer.

Considerações Finais

Minha jornada pelo NEPPA ensina que escutar adolescentes é, fundamentalmente, um ato de aposta no tempo futuro. É um trabalho delicado de jardineiro que insiste em cuidar do broto em meio a um terremoto pulsional, onde o solo da infância treme para dar lugar ao novo. Essa travessia me mostra que, para sustentar o desejo do analista diante do Real que o adolescente nos endereça, é preciso que a nossa própria angústia possa circular, ser dita e elaborada no laço social.

Assim o sendo, a troca com os colegas não é apenas um refúgio, mas o andaime necessário para navegar com segurança pelas águas turbulentas dessa clínica, transformando o impacto do encontro em material de trabalho e vida.

Essa experiência vem reafirmando que, embora a psicanálise se exerça na solidão do ato — naquele instante único e irrepetível do encontro clínico —, ela jamais deve ser sustentada no isolamento da formação. O convívio com os pares, o estudo compartilhado e a transmissão mútua são os fios que tecem a rede de proteção do próprio analista. É no reconhecimento das nossas frestas e na partilha dos nossos impasses que encontramos o suporte para não recuar diante do excesso do outro. A formação permanente, portanto, não é um acúmulo de títulos, mas uma construção coletiva que nos permite habitar a nossa prática com mais ética e menos desamparo.

Deixo aqui meu convite: se a clínica da adolescência te convoca e te inquieta, não caminhe sozinho. Busque seus pares, ocupe os espaços de saber e permita que sua voz ecoe em outros portos. O amadurecimento que tenho vivido nesses semestres é a prova de que o saber só se torna vivo quando é partilhado “de coração a coração”. E você, colega que também se aventura a escutar o despertar da primavera: como tem preparado sua escuta para os desafios da contemporaneidade? O silêncio do seu consultório tem sido habitado pela troca ou você tem estado solitário?

Referências bibliográficas e leituras sugeridas

        Para aprofundar os temas abordados neste relato, sugiro as seguintes leituras fundamentais que nortearam nossos estudos:

DOLTO, Françoise. A causa dos adolescentes. Aparecida: Ideias & Letras, 2016.

FERREIRA, Hugo Monteiro. A Geração do Quarto: quando crianças e adolescentes nos ensinam a amar. Rio de Janeiro: Record, 2021.

FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). Tradução de Paulo César de Souza. In: FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 6: Um caso de histeria, Três ensaios sobre a teoria da sexualidade e outros textos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

KNOBEL, Mauricio; ABERASTURY, Arminda. Adolescência normal: um enfoque psicanalítico. Porto Alegre: Artes Médicas, 1981.

LACAN, Jacques. O despertar da primavera. In: LACAN, Jacques. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

LE BRETON, David. Uma breve história da adolescência. Petrópolis: Vozes, 2017.

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Fabiana Tavares é Psicanalista (em formação). Docente. Nutricionista. Acupunturista. Yogaterapeuta. Terapeuta Holística. A transdiciplinaridade e a saúde pelo viés integrativo são trilhas que venho experienciando por mais de duas décadas porque compreendo que cada pessoa é um todo complexo que precisa/ busca viver o(auto)amor, a felicidade genuína e necessita ter sua singularidade acolhida.

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